STJ aprova oito novas súmulas de Direito Público

O Superior Tribunal de Justiça aprovou, em sua última sessão de julgamentos de 2018,  oito novas súmulas relativas ao direito público.

As súmulas são o resumo de entendimentos reiterados e consolidados, extraídos  dos julgamentos do Tribunal, e servindo como orientação aos operadores do direito.

Confira as novas súmulas:

Súmula 622: A notificação do auto de infração faz cessar a contagem da decadência para a constituição do crédito tributário; exaurida a instância administrativa com o decurso do prazo para a impugnação ou com a notificação de seu julgamento definitivo e esgotado o prazo concedido pela administração para o pagamento voluntário, inicia-se o prazo prescricional para a cobrança judicial.

Súmula 623: As obrigações ambientais possuem natureza propter rem, sendo admissível cobrá-las do proprietário ou possuidor atual e/ou dos anteriores, à escolha do credor.

Súmula 624: É possível cumular a indenização do dano moral com a reparação econômica da Lei 10.559/2002 (Lei da Anistia Política).

Súmula 625: O pedido administrativo de compensação ou de restituição não interrompe o prazo prescricional para a ação de repetição de indébito tributário de que trata o artigo 168 do CTN nem o da execução de título judicial contra a Fazenda Pública.

Súmula 626: A incidência do IPTU sobre imóvel situado em área considerada pela lei local como urbanizável ou de expansão urbana não está condicionada à existência dos melhoramentos elencados no artigo 32, parágrafo 1º, do CTN.

Súmula 627: O contribuinte faz jus à concessão ou à manutenção da isenção do Imposto de Renda, não se lhe exigindo a demonstração da contemporaneidade dos sintomas da doença nem da recidiva da enfermidade.

Súmula 628: A teoria da encampação é aplicada no mandado de segurança quando presentes, cumulativamente, os seguintes requisitos: a) existência de vínculo hierárquico entre a autoridade que prestou informações e a que ordenou a prática do ato impugnado; b) manifestação a respeito do mérito nas informações prestadas; e c) ausência de modificação de competência estabelecida na Constituição Federal.

Súmula 629: Quanto ao dano ambiental, é admitida a condenação do réu à obrigação de fazer ou à de não fazer cumulada com a de indenizar.

Nova orientação jurisprudencial do TCU – Contagem do prazo de duração da declaração de inidoneidade

por Fernanda Leoni

Nos últimos anos, especialmente com a deflagração da “Operação Lava Jato”, o Tribunal de Contas da União, valendo-se da prerrogativa contida no artigo 46, da Lei Federal nº 8.443/1992 (“Lei Orgânica do TCU”), vem instaurando representações para a apuração e declaração de inidoneidade de empresas que tenham participado de certames com suspeita de fraude.

Segundo o texto legal, “verificada a ocorrência de fraude comprovada à licitação, o Tribunal declarará a inidoneidade do licitante fraudador para participar, por até cinco anos, de licitação na Administração Pública Federal”, não havendo, ao longo do corpo da norma, ou mesmo em seu Regimento Interno, qualquer outra disposição sobre o tema.

Para evitar dúvidas acerca da aplicação desta sanção, especialmente sobre a cumulação de mais de uma declaração de inidoneidade, no ano de 2012, o TCU instaurou processo administrativo para estudo do tema (TC nº 027.014/2012-6), visando a consolidação do modo com que a Controladoria-Geral da União fazia o registro desta restrição em cadastro de contratações federais.

Sob a relatoria do Ministro Walton Alencar, em sessão realizada no dia 24/02/2016, foi proferido o Acórdão nº 348/2016 – Plenário, por meio do qual foram firmados alguns entendimentos não somente quanto ao prazo da sanção, mas também sobre o seu alcance. A orientação que passava a vigorar pode ser assim sintetizada:

  • Com relação à extensão das sanções impostas pelo TCU, entendeu-se que a declaração de inidoneidade também alcançava as licitações e contratações diretas promovidas por estados e municípios, quando custeadas com recursos oriundos de transferências voluntárias da União, afastando a dúvida sobre a abrangência da parte final do artigo 46, que estabelece que a fraude comprovada deve ocorrer em “licitação na Administração Pública Federal”.
  • A contagem do prazo para o cumprimento da sanção somente se inicia com o “trânsito em julgado” da decisão que a impôs.
  • No caso de ser aplicada mais de uma declaração de inidoneidade à mesma empresa, que podem ter períodos iguais ou diversos, o cumprimento de cada uma delas será sucessivo, e não concomitante. Isso porque, no entendimento do TCU, o cumprimento das sanções de forma concomitante inibiria o caráter retributivo da pena, reduzindo sua eficácia. Desse modo, supondo que a decisão “A”, que impõe a declaração de inidoneidade por um ano, comece a vigorar na data de hoje, eventuais sanções que sobrevenham a esta data se iniciam com o término da primeira pena, evitando que mais de uma sanção seja cumprida ao mesmo tempo.
  • Em todo o caso, independentemente do número de sanções cumuladas, o período total cumprido pela empresa decorrente de sua soma não pode ultrapassar o máximo de cinco anos, por aplicação analógica do artigo 75, do Código Penal, que prevê a unificação das penas. Havendo nova condenação neste período, decorrente de fato posterior ao início da sanção, será realizada nova unificação, a partir da soma do que restava a cumprir da sanção antiga com o período da nova sanção, desprezando-se o período já cumprido. Se a nova condenação for por fato anterior, o total da sanção é lançado no período total, limitado a cinco anos. Em geral, segue-se a regra vigente no Direito Penal.
  • Se após o cumprimento do período total destas sanções sobrevier nova declaração de inidoneidade, esta será considerada punição originária, independentemente de o fato, em si, ter ocorrido antes ou depois do período de execução.

 

Em face do Acórdão nº 348/2016 – Plenário, o Ministério Público de Contas interpôs Pedido de Reexame, buscando reformar, principalmente, o limite máximo de duração da soma das sanções, estabelecido em cinco anos. Para o MPTCU, as declarações de inidoneidade que se cumulassem não deveriam estar limitadas por prazo algum ou, se assim estivessem, que se aplicasse o prazo penal de trinta anos.

O Plenário do TCU, reunido em sessão do último dia 21/11/2018, desta vez sob a relatoria do Ministro Bruno Dantas, proferiu o Acórdão nº 2.702/2018, em que manteve o limite temporal de cinco anos para o cumprimento de sanções cumuladas, com algumas alterações no entendimento anteriormente consolidado.

As sanções cumuladas, que continuam sendo cumpridas de forma sucessiva, agora têm como marco o respectivo trânsito em julgado. De qualquer forma, para fins de cálculo do limite total de cinco anos, este período é calculado a partir da primeira dentre as várias sanções impostas.

Contudo, altera-se consideravelmente a orientação que vigorava para a prática de nova fraude no curso da execução de uma sanção de inidoneidade. Antes, como ponderado, existiam duas regras distintas para a superveniência da infração, que tinha formas igualmente distintas de cálculo e início, a depender da data do ilícito (se antes ou depois da imposição da primeira pena).

Agora, havendo nova fraude no curso da execução, a contagem do limite de cinco anos será reiniciada da data deste novo ilícito (e não do trânsito em julgado da decisão), desprezando-se todo o período já cumprido e realizando-se nova unificação. Na prática, portanto, as sanções cumuladas poderão superar o período de cinco anos, a partir desta interpretação menos rígida da própria orientação do Tribunal.

Publicado novo decreto atualizando os valores das modalidades de licitação

por Camillo Giamundo

Foi publicado, no dia 19.06.2018, o Decreto nº 9.412/2018, que atualiza os valores das modalidades de licitação dispostos na Lei Federal nº 8.666/93.

As modalidades e seus valores vêm dispostos no artigo 23 da Lei de Licitações, cujos limites estavam defasados há mais de 20 anos, não representando os valores de mercado atualmente praticados e dificultando o lançamento de certames pela Administração Pública.

Com a edição do novo decreto, os valores foram atualizados da seguinte forma:

Modalidade Valor antigo Valor atualizado (Novo decreto)
Obras e Serviços de Engenharia
Convite Até R$ 150.000,00 Até R$ 330.000,00
Tomada de Preços Até R$ 1.500.000,00 Até R$ 3.300.000,00
Concorrência Acima de R$ 1.500.000,00 Acima de R$ 3.300.000,00
Compras e serviços
Convite Até R$ 80.000,00 Até R$ 176.000,00
Tomada de Preços Até R$ 650.000,00 Até R$ 1.430.000,00
Concorrência Acima de R$ 650.000,00 Acima de R$ 1.430.000,00

 

Os novos valores passam a valer após 30 dias da publicação do decreto.

Breves comentários sobre a Portaria nº 349/18, do Ministério do Trabalho

Poucos dias após entrar em vigência, a Lei 13.467/2017, chamada Reforma Trabalhista, foi complementada pelo Poder Executivo com a publicação, em 14.11.2017, da MP 808/2017, com alteração e inserção de alguns pontos. Alterou-se, por exemplo, a anterior liberação quanto à periodicidade no pagamento dos prêmios sem correspondente repercussão remuneratória, o que, por meio da MP, somente perderia a natureza salarial caso pago semestralmente. Complementou, por sua vez, o contrato de trabalho intermitente, explicitando-se diversas hipóteses não previstas na Lei 13.467/2017.

Ocorre que em 23.04.2018, vencido o período de vigência, a MP perdeu a validade e seu texto foi excluído do ordenamento jurídico. Assim, mantendo-se os exemplos acima, o pagamento mensal dos prêmios não repercutirá, só por isso, na sua natureza salarial. O contrato intermitente voltou ao ambiente de dúvidas e incompletude.

No fim do mês de maio o Poder Executivo voltou a editar norma por meio da qual repetiu, em parte, o texto da agora vencida MP 808/2017. Contudo, o fez por meio de norma administrativa. Trata-se da Portaria n° 349, publicada em 23 de maio de 2018 pelo Ministério do Trabalho, cujo escopo declarado é: “Estabelece regras voltadas à execução da Lei n° 13.467/2017, de 13 de julho de 2017, no âmbito das competências normativas do Ministério do Trabalho”.

Referida Portaria, ao contrário da MP, não detém a força de Lei. Não ocupa, assim, o vácuo legal deixado pela MP 808/2017 quando vigente. Ou seja, enquanto previstas na MP, as normas eram de aplicação obrigatória. Agora, como Portaria Ministerial, as regras prestam-se a orientar o próprio Ministério do Trabalho no âmbito da sua atuação, especificamente para as inspeções realizadas pela Fiscalização do Ministério do Trabalho.

Ainda assim, trata-se de texto que deverá ser conhecido e consultado sempre que algum dos temas ali abordados seja objeto de dúvida no trato das questões trabalhistas dentro da empresa. Mesmo sem força de Lei, é fonte para interpretação da nova Lei Trabalhista e será aplicada pela Fiscalização do Trabalho nas suas inspeções.

São os temas da Portaria 349, 23.05.2018 do MTE:

Trabalhador Autônomo – Esclarece que o fato de trabalhar para apenas um tomador de serviços, mesmo exclusivo, não repercute na natureza empregatícia do vínculo. Ainda assim, diz, textualmente, que “Presente a subordinação jurídica, será reconhecido o vínculo de emprego”. Aponta que as profissões regulamentadas são aquelas típicas para o desenvolvimento do trabalho autônomo, citando nominalmente as profissões de motorista; representante comercial e corretores de imóveis.

Contrato de Trabalho Intermitente – Define a possibilidade da remuneração mensal e esclarece, em detalhes, como se processa o cálculo da média remuneratória e ratifica como sendo do empregador a obrigação pelo recolhimento do imposto de renda e das contribuições previdenciárias. Inova, contudo, ao prever situação na qual poderá ocorrer a descaracterização do contrato de trabalho intermitente, decorrente do simples pagamento ao trabalhador pelo tempo à disposição no período de inatividade, o que, certamente, repercutirá em aprofundadas discussões nos Tribunais.

Gorjeta – Prevê a necessidade da média das gorjetas recebidas no mês ser anotada na CTPS do empregado.

Comissão de Representação dos Trabalhadores – Ratifica o que a Constituição já diz, no sentido de que a Comissão não substitui o Sindicato na negociação de Acordos e Convenções Coletivas de Trabalho.

A nova Portaria do tem certamente será motivo de divergentes decisões nos Tribunais, seja do ponto de vista da interpretação da Reforma Trabalhista, seja no ponto de vista da possibilidade do Executivo, por meio do Ministério do Trabalho fazer as vezes de Legislador.

É fato que a Portaria não contraria a Lei vigente, mas ainda assim prevê situações que não estão ali definidas em Lei, extrapolando o legislado, de onde conflitos de aplicação da norma poderão surgir, o que torna sua análise e conhecimento de suma importância aos operadores do Direito do Trabalho.

A obrigatoriedade de divulgação da evolução da tabela tarifária praticada pelas concessionárias de serviços públicos

Por Diogo Albaneze Gomes Ribeiro

No dia 06.06.2018, entrou em vigor a Lei nº 13.673, de 5 de junho de 2018 (“Lei nº 13.673/2018”), que obriga as concessionárias e prestadoras de serviços públicos a divulgarem, em seu sítio eletrônico, tabela contendo a evolução do valor da tarifa e do preço por elas praticados.

Para tanto, a Lei nº 13.673/2018 alterou o artigo 9º da Lei 8.987/95 (“Lei de Concessões”), que passou a vigorar acrescido do seguinte § 5º:

“Art.9º

(…)§ A concessionária deverá divulgar em seu sítio eletrônico, de forma clara e de fácil compreensão pelos usuários, tabela com o valor das tarifas praticadas e a evolução das revisões ou reajustes realizados nos últimos cinco anos.”

 

Essas mesmas alterações foram refletidas nas legislações que regulamentam os setores de energia elétrica e telecomunicações.

Nesse contexto, o art. 15 da Lei nº 9.427/1996, que instituiu a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL e, dentre outras providências, disciplinou o regime das concessões de serviços públicos de energia elétrica, passou a vigorar com a inserção do §3º, nos seguintes termos:

“Art. 15.  ………………………………………………………………

(…) § A concessionária deverá divulgar em seu sítio eletrônico, de forma clara e de fácil compreensão pelo consumidor final, tabela com o valor das tarifas praticadas e a evolução das revisões ou reajustes realizados nos últimos cinco anos.”

 

No setor de telecomunicações, o art. 3º da Lei nº 9.472/1997 foi acrescido do seguinte parágrafo único: “Para o cumprimento do disposto no inciso IV do caput deste artigo, a prestadora de serviço deverá divulgar em seu sítio eletrônico, de forma clara e de fácil compreensão pelos usuários, tabela com o valor das tarifas e preços praticados e a evolução dos reajustes realizados nos últimos cinco anos.

A referida inovação legislativa tem como justificativa conferir uma maior transparência à sociedade em relação aos valores das tarifas praticadas pelas empresas prestadoras de serviços públicos. Ademais, pretende-se permitir que os usuários passem a ter um mecanismo de fácil comparação entre os preços praticados por empresas que oferecem o mesmo serviço.